ANZÓIS DE METÁFORAS
Canções de amor em poemas de amores risíveis
O Autor
Carioca da “gema” por afinidade cultural — e também da “clara”, por proximidade geográfica. Explico: nasci nos arredores do Rio de Janeiro, em São Gonçalo. Atravessando a ponte Rio-Niterói, “São Gonça” (como diria Seu Jorge) é logo ali, a menos de 20 km.
Em cartório, Renato Bravo Monteiro. Mas, na literatura, adotei “Daumas”, em homenagem a uma história familiar do meu pai. Ele, muito orgulhoso do sobrenome herdado da mãe, Mathilde, sempre falava da “famosidade” dos Daumas. Dizia que a família descendia de Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros.
A história, contada e recontada tantas vezes até hoje, diz que a família Dumas se refugiou em Conceição de Macabu, pacata cidade ao norte do Estado do Rio de Janeiro. Lá, adotaram a variante “Daumas”. Fato é que, nessa cidade, os Daumas existem mesmo.
Aos 22 anos publiquei meu primeiro livro: Sempre e Somente Amor. Um livrinho de apenas 44 páginas e 43 poemas, mas que me tornou conhecido como “poeta”. A edição só foi possível graças ao amigo Orvil, colega na Encyclopaedia Britannica do Brasil, que convenceu uma pequena gráfica a bancar a impressão.
Alguns anos depois, animado com homenagem recebida de uma escola pública, em face desse livrinho ter sido o mais lido da biblioteca, publiquei “Acontecências”. Uma edição ainda artesanal, embora bem mais cuidadosa, com 103 poemas distribuídos em 88 páginas.
De lá pra cá, nos meandros desse tempo, cursei Letras (Português–Literatura), o que me fez refinar a escrita — mas sem soberba linguística. Nesse percurso, de tanto enredar poesia, causos e sentimentos, decidi lançar minhas “arte-iscas” em Anzóis de Metáforas. Agora, enfim, uma edição profissional, com o selo da Editora Muiraquitã: 148 poemas, reunidos em um belo livro de 192 páginas.
A poesia de Anzóis evoca sua filosofia própria de amor: “leveza e humor também são formas sérias de amar.” Os poemas revelam o cotidiano comum dos amores em sua essência — das paixões desenfreadas às sofríveis desilusões. Mas tudo com boa dose de ironia e irreverência. Nada de morrer de amor!
Talvez por ter nascido da musicalidade, Anzóis pescou um subtítulo muito apropriado: “Canções de Amor em Poemas de Amores Risíveis”. Alguns poemas-letras fazem ecos e alusões a grandes nomes da MPB, como Alceu Valença, Bezerra da Silva, Caetano Veloso, Cartola, Chico Buarque, Djavan, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Lulu Santos, Marisa Monte, Nando Reis, Rita Lee, Roberta Campos, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Zeca Pagodinho.
Anzóis de Metáforas é, afinal, a pescaria poética de uma vida — lançando versos e acordes como iscas, em busca de corações dispostos a morder o anzol da poesia.
O Livro
Prefácio
A coloquialidade e o bom humor estão presentes em Anzóis de Metáforas, cujos versos soam como uma conversa ao pé do ouvido. O leitor torna-se, quase sem perceber, confidente privilegiado da voz poética: segredos compartilhados criam a cumplicidade necessária para ser fisgado pela poesia de Renato Bravo.
Anzóis é composto, quase em sua totalidade, de poemas que tematizam o Amor sem sofrência, sem melancolia e sem idealismos. Como diz o eu lírico: “Deixe de filosofrer e seja apenas uma mulher”. É um amor-convite à degustação do que há de belo na vida corrente, no cardápio diário: “Meu coração é gastronômico / gosta de muito tempero”.
O prazer erótico não se distancia de tantos outros prazeres mundanos. Entre cerveja, churrasquinho e samba-pagode, ele se apresenta como mais uma das manifestações do viver cotidiano — leve, intenso e real, sem ser trágico.
Interessante notar que, quando assume voz feminina, essa persona poética não a apresenta frágil ou derretida em meiguices. Trata-se de uma presença firme, que define tanto o próprio prazer quanto a extensão de seu sentimento.
O livro ainda nos presenteia com as musicalidades de Anzóis, anunciadas no subtítulo: “Canções de Amor em Poemas de Amores Risíveis”.
As leituras musicais dos poemas-letras, realizadas com o apoio da inteligência artificial, apontam variações rítmicas e melódicas, acrescidas de sugestões de intérpretes. Um diálogo curioso e instigante entre poesia e tecnologia, que abre novas possibilidades de escuta para a palavra escrita.
Anzóis de Metáforas é um livro que oferece “iscas ariscas” para fisgar palavras, em versos e melodia. O leitor, parceiro de pescaria, se lambuza, lambe os dedos e os beiços, e se farta de tanto peixe-poesia.
Por Maria Luiza de Castro da Silva — Doutora em Literatura Comparada/UFF e Mestre em Literatura Brasileira/UERJ
Anzóis de metáforas
não quero nada que destoa
do que me der na telha, à toa
nada que me vacine
nada que vaticine
o dia que ainda virá
quero ser hoje
só o que sou agora
porque amanhã
tudo tende a mudar
no calendário das pessoas:
amor, humor, desejos, ideias…
a lua míngua, depois de cheia,
pra nova, novamente voltar faceira
o poeta canta um blues:
— “o amor é azulzinho”!
deixo o mar me navegar
levar meu barco pescador
com suas iscas ariscas
que se arriscam, sem temor
em meus anzóis de metáforas
nas ondas que vêm e vão
à deriva,
de certezas e calmaria
no horizonte,
uma aquarela
salmão no ocaso,
quase camarão
enquanto a tarde cai…
* ocaso = poente, pôr do sol. (https://michaelis.uol.com.br)